sexta-feira, 6 de junho de 2014

Medo

Ancestral sofridão e demonstração de fragilidade animal. Medo de tanto, medo de nada, medo de sentir, medo de viver. Porque terá surgido? Como surgiu?
 
Dor, ódio, falta de amor, repúdio, sofrimento, angústia, desilusão, perda, solidão, choro, fragilidade... Tudo pedras arremessadas à fundação do individuo ameaçando-o fazer ruir, numa devassidão que suprime todo o desejo, toda a cor, toda a coragem.
 
Tão pouco é preciso fazer para afastar o medo, mas tanto mais o faz regressar. Desequilíbrio de ações que se traduz num absurdo duelo entre o passo em frente e a rendição figurativa à posição fetal.
 
Rosto que te toldas perante o medo
É de um abraço que precisas?
Um beijo talvez, ou nada quem sabe
Ofereça o pobre aquilo que não tem
Porque gozas tu coragem o medo?
Tu que estás só, ele que tem tanta companhia
Eu, tu, ele, nós, vós, eles - todos
Todos temos medo de algo, medo de ter medo
É isso o medo - somos nós!

sábado, 17 de maio de 2014

De volta ao refúgio



O ser humano nasce e perante ele se prostra um mundo de possibilidades, de infinitas descobertas. Cresce a aprender, a conhecer, a explorar, desenhando o seu mapa e traçando novas fronteiras. De início usa todos os seus sentidos; os olhos para saber o que pretende alcançar, seduzido por cores, movimentos e formas; os ouvidos para entender entre o indecifrável desejo dos progenitores em comunicar, se se tratam de estímulos para prosseguir ou de alerta; os rudimentos da fala que exteriorizam mais de que vocábulos, mas sons de pura orgânica, anunciando a sua presença; o tato e o nariz, ainda presentes pela boca, pois a criança tudo cheira, tudo toca, levando simplesmente à boca.
 
O desejo de refúgio, de segurança é superado pelo desejo da aventura,  da descoberta, do alargar de horizontes. O conforto, a comodidade, a segurança do refúgio está lá, bem presente, sempre de braços abertos.
 
Cresce o ser humano e a cada descoberta, a cada traço no mapa exponencia-se a sensação de vazio. Desvanece-se o entusiasmo, surgem as dúvidas... A teimosia de não desistir sempre empurrando em frente, trás a dada altura a consciência da dimensão ridícula que cada um na verdade tem. Escala de tempo e espaço de dimensão reduzida, na vastidão do que há ainda por descobrir.
 
Os ouvidos nada parecem escutar, a boca fala da mente em línguas que ninguém parece compreender, o cheiro captado é irreconhecível, os olhos fecham-se pois não querem olhar para lado algum, como que impedindo assim a progressão. As mãos essas, as mais insanas, abrem-se em toda a amplitude, num gesto de generosidade e no rosto procuram tapar boca, olhos, ouvidos e nariz...
 
Num rasgo de coragem, olhando em redor procura-se o conforto. Sim ele, onde está? Em mares tenebrosos procura o farol que te encha de calor, de energia, de esperança. Segue-o, ele consegue trazer-te de volta, de regresso ao refúgio...
 
Encontrar o equilíbrio entre o conforto e a descoberta é a chave do indomável espírito humano. Os que do conforto prescindem, nada farão com a descoberta. Quem não se liberta do conforto, já mais descobrirá o seu lugar e o sem tempo, embora porém possivelmente mais felizes pois a sua dimensão é a que escolhem ter.
 
Sai, aventura-te, descobre, arrisca, vive e sente! Encontra o teu farol, mantenho-o sempre presente, mesmo que te surja pelo canto do olho como uma imagem desvanecida e desfocada. Assim que a dor, o cansaço, a saudade, a tristeza surgirem, vais querer voltar ao refúgio!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Um dia, criança, um dia!

Alheio a tudo, pequeno ser com todo o significado da existência. Retratos esborratados de figurantes que mais não são que isso. Deslumbres de atividades, aparentemente longínquas.
 
Captura de desejo por concretizar ou, imagem indistinta do passado, tanto faz. Lentamente o foco surge sobre a criança e tudo em redor se desvanece na importância inexistente. Fosse o mundo assim, fossem os problemas e as soluções passíveis de serem trabalhadas com um brinquedo.
 
Felicidade contida em tão pouco. Simplicidade e harmonia tranquila. Nada aflige, nada preocupa, nada distrai. É uma criança, é a pureza, é a ingenuidade. Resumindo é tudo o que o que se esbate e desaparece, não o sendo.
 
O beijo quente do sol, a frescura da água, o aconchego do chapéu, a textura da areia, o silêncio do ruído distante... Fascinante imagem que suscita dos mais primários instintos de progenitores, nos desígnios do saber ter perdido, o que sempre deveria existir.
 
Palavras cruas, frias, aparentemente desprovidas de calor emotivo, num render incondicional ao que por esta foto foi roubado. Velhas crenças, significados recentes, roubo o houve, não da alma da criança, mas do espírito de quem pelo retrato a observa.

domingo, 4 de maio de 2014

Por um caminho diferente

 
O percurso na vida: ponto de partida, local de chegada, nascimento, morte. Algo liga estes dois pontos, reta essa que poderá ser chamada de percurso.
 
A geometria da vida não segue contudo a matemática e a racionalidade dos números. A reta toma diversas direções, sentidos opostos, numa insanidade à qual não se encontra Criador para tal.
 
Destino, aflora à ideia desta conceção, mas não, seria demasiado redutor, simplista por assim dizer. Ponto de partida, ponto de chegada, unidos por um percurso, que toma diversos caminhos. Nesta simplicidade reside o início desta ideia...
 
Caminho ladeado por árvores, há muito pouco tempo desprovidas de vida, de folhas, de cor. Os pássaros exibem-se numa profusão de sons; os ramos esgalham-se, assediados pela mesma brisa que acaricia a pele despida e suada do caminhante; pelo nariz invadem promessas de esplendor odorífero.
 
Inquietante escolher um caminho, o caminho. Horrendo por vezes seguir nesse mesmo caminho. Por vezes o caminho é muito largo e muitos seguem a par do caminhante, outras porém seguirá sozinho mais tempo que o deseja, pois os obstáculos terão de ser vencidos na individualidade.
 
Por vezes, as árvores estão totalmente despidas, chove e está frio; outras vezes está calor, e na sombra das árvores encontra-se resposta à súplica para refrescar; por vezes o caminho está tal qual aqui se mostra; outras vezes é sugada a energia das folhas, até que se debruçam num último mergulho sobre o chão, ostentando cores intensas e acariciando os passos do caminhante...
 
Sazonalidades, simples caprichos do destino. Destino insiste em surgir, mas aqui não toma lugar. Se ao menos os caminhos tivessem setas amarelas indicando qual a escolha, com a sensatez de fazer parte do percurso!
 
Escolhe sentir, escolhe descobrir, escolhe confiar nos sentidos, escolhe seres tu. Escolhe saber escolher, com consciência de onde vens mas sem te importares para onde vais e qual o fim. Saberás ser o teu destino quando souberes afirmar: estou aqui e estou vivo!
 
Se ainda não o sabes dizer então segue por um caminho diferente...



 

terça-feira, 29 de abril de 2014

O anjo

Devaneios fotográficos maio 2012

Anjo caído ou humano erguido... Indícios celestiais pautados em rudes traços humanos!
 
Para quê artificialidades? O porquê dos ornamentos, qual a causa das imaterialidades físicas tornadas visíveis?
 
As sombras que ornamentam as janelas; janelas essas que deveriam confiar a visão da alma divinal.No entanto precipitam num abismo de sufoco.
 
Mas e as asas? Asas de anjo amarrados a um corpo humano. Divindade mundana! Incoerências numa mitologia inexistente nos tempos modernos.
 
"Abraça-me, toma-me, limpa a sombra dos olhos que escurece a minha alma, com as lágrimas que derramo..." Parece dizer sem mover boca ou olhos!
 
A boca... Não se beija um anjo!
O peito... Maternidade humana.
As asas... Voos de imaginação!
Os ombros... Abraços bem reais.
 
Um anjo sem dúvidas, pois pudera algum descendente do útero de Eva, assim se erguer. Todavia um anjo caído, anjo que se abraça, anjo que se ergue. Basta acreditar, basta encontrar, basta erguer.
 
Tomar nos braços para erguer à condição humana, para que depois as asas elevem onde os sonhos persistem, sem que nenhum dos dois alguma vez caia.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dançar nas nuvens

Devaneios fotográficos maio 2012

"Se te aproximares eu salto!" Assim parece ela dizer, num simples retrato encaixotado na moldura de uma janela, tendo por cenário um céu pincelado a cores de nuvens.
 
Gingar de anca, abraçado no encarnado do que está por despir. Roupas não têm lugar na dança das nuvens.
 
Pé ante pé, uma mão segurando o abismo, a outra balbuciando convite para aproximar. Desafio, ou ameaça? Aproximar, ou seguir sentido oposto?
 
Encantamento do olhar, focado num rosto que se resguarda, onde o cabelo reforça a forma do mistério.
 
"Tens de largar a mão!" Eis o que anseia ouvir, quando o tempo sente, o espaço deseja e a solidão se apodera. Solidão, essa forma monstruosa da miséria humana.
 
Não é de solidão que se trata, não aquela que se define pelo oposto à presença próxima de alguém ou algo. Serenidade rítmica, apelativa ao olhar num salto de fé, onde o abismo é vencido pela força magnetizante do horizonte, oferecido pela mais pura das danças.
 
Bailarina que fazes dançar, ninfa dos tempos modernos... já és vista, já és sentida; os sentidos despertam, a mão é agora agarrada, a outra liberta-se para fechar a janela.
 
Que a dança se inicie, com a sofreguidão da primeira golfada de respiração após um longo coma. Nas nuvens se sentem - nas núvens- pois no solo não há essa possibilidade!
 
Na janela que tudo mostra, apenas tu és vista!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Distâncias perpétuas

Duas árvores e um banco, uma distância e dois seres vivos.
 
Imóveis, estáticos, cheios de vida, com desejo de florescer numa altivez de clorofila.
 
Distância guardada por um objeto antrogênico, com resquícios de materialidades, ora vivas que o foram apenas em memórias de experiências passadas.
 
Porém braços tocam-se, embalando as folhas com a suavidade, desculpa da brisa que sussurra cumplicidades partilhadas. O banco esse trás o conforto, não sem distanciar na vergonha da preguiça de passados defuntos.
 
A distância é o convite à pausa, ao conforto, à contemplação. Para lá da colina ergue-se uma superfície de oportunidades, cujos braços tão juntos que as mãos se dão, conseguem antever um movimento de perpétua inércia. Não se movem mas poderiam-o fazer; ramos que são braços, braços que são asas, e o prado verde transforma-se num céu azul prestes a ser rasgado pela energia inebriante de dois seres vivos ora árvore, ora distantes.
 
A primavera e a vitalidade, folhas e mais folhas. Desvanece-se a distância, desaparece o banco entre toque de braços que se funde num abraço. Não há conforto, não tem de o haver, mas o banco, a distância, essa persiste e está presente.
 
Os outros momentos sazonais são amenos em termos de proximidades. Os outros, pois falta mencionar inverno. Parte o fulgor, esvai-se a energia, sucumbe a cor, prevalecendo apenas a forma do banco. Materialização de distâncias.
 
Asas, braços, ramos, ser vivo... Dois uno, simplesmente regredindo em dois indivíduos. Brisa é substituída por feroz vendo que suga os últimos resquícios de energia em forma de folhas de tons envelhecidos, provocando agressivos estocadas entre ramos.
 
Só o banco não muda, apenas a distância não se altera. Ciclos intermináveis, que não cessam à escala temporal de duas existências. Traço de escrita cinzento, pois os seres vivos retratados não só terão braços no lugar de ramos, como pernas no lugar de raízes num antropomorfismo ímpar.
 
Porque terá o "jardineiro" as plantado tão longe e porquê o banco?

 

domingo, 20 de abril de 2014

Despertar da penumbra

 
Momento que desconhece fronteiras físicas ou temporais. Reveste-se de significados que se perdem até onde a raça humana se atreveu a povoar, numa escala de tempo apenas mensurável na tradição oral.

Fusão de significados, de sentidos, de uniões indisfarçavelmente absurdas. Luz e penumbra, início e fim, noite e dia, apenas a parte do tudo que é representado, cativando para além da compreensão.

Sem lágrimas, sem risos, sem palavras, sem gestos... Imobilidades físicas, abraçando um momento solene de indiscutível profundidade.

O dia morreu, a noite nasce. Fecha os olhos a luz, arrefece o calor, o nosso corpo acompanha estes estímulos que nos circundam, abrandando e entregando-nos a uma sonolência que se apodera de nós. Sentimos chegar uma morte sem luta, sentimos aproximar-se o desejo de recolhermos e dormirmos. Mais um fim, mais uma morte, a morte do dia, o sono, o adiar da vida numa pausa obrigatória.

Observar o por do sol é um ato de solidão, um ato de egoísmo. Sentirá o pescador ser apenas dele este momento, quando se julga só? Milhões destes momentos, multiplicados por todos os locais, porque não possuir este, negando mesmo a quem o captura pela lente? A sua dimensão dissolve-se tal qual a sua silhueta perante a incapacidade de focar; jaula alguma pode conter este momento, pelo que o que vem e vai independentemente da vontade e do desejo, alguma vez pode ser propriedade de alguém.

A cor que explode como gastando as últimas réstias de energia, antes da lâmpada se fundir e a escuridão tomar o seu lugar devido. O Sol desaparece com fulgor para regressar timidamente, enquanto que a Lua goza de mais maturidade e aguarda pacientemente a sua vez de chegar e partir. Não há nascer, ou por da Lua, não há, ela apenas existe.

Outras histórias, outros fulgores, dispersares de ideias e sentimentos. Arrebatamentos, memórias, sensações que perduram e estimulam. Entre recordações e estímulos, sejamos exacerbados pelo poder paralisante do por de sol mais marcante que tenhamos presenciado, finalizando momentos que têm de terminar, com a promessa de um novo começo nos encha de uma nova esperança.

Assim se julgue o pescador seu proprietário, despertando pela penumbra!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Escalar o mundo

Pedra ante pedra se ergue o pedestal. Pedestal este destituído da cor, abraçado pelo cinzento, buscando o beijo do azul.
 
O mundo aos pés, escalado pela força dos braços. A mente essa, perscruta o horizonte, olhar descaído no receio das alturas e a respiração ofegante beijando o ar que penetra as narinas, sufocando o pânico que ameaça apoderar-se.
 
O poder da grandeza rapidamente sucumbe ao desespero avassalador da solidão. Solidão essa que abraça por todos os lados, sem mostrar rosto, sem aquecer com o toque, mas sussurrando ao ouvido o silêncio que gela a mente e estremece o âmago mais íntimo.
 
A escalada iludiu com a sobranceria sobre o mundo abaixo prostrado. O mundo deixa-se escalar apenas para mostrar o devido lugar das coisas. Ele lá em cima entende agora o seu lugar e vendo-se não mais que uma coisa, pé ante pé, precipita-se no salto que lhe trará o fim da solidão.
 
Ao menos os pés não fossem pedras...